sábado , 29 abril 2017
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Maria de Zé Estevão: memória-viva de Capelinha

Conheça um pouco da história da cidade sob a ótica dessa grande mulher

– Rosa Santos –

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Maria de Zé Estevão, que completou 90 anos no dia 26 de dezembro

Em 26 de dezembro de 1926 nasceu em Capelinha a menina Maria Santana de Jesus, filha de José Camilo e Galdina. Maria, a partir da adolescência, foi criada pelo casal Teodomiro Vitor e Dona Eloína, que estão na lista dos capelinhenses mais ilustres da história do município. Teodomiro e Eloína são os pais de Dona Marlene Pimenta (Marlene de Heraldo). A casa da família ficava na região onde é hoje o Banco do Brasil, na rua Doutor Hermelindo.

Da casa da irmã de criação Marlene Pimenta, a jovem Maria saiu casada com José Cordeiro de Oliveira –  chamado de Zé Estevão, com quem teve dois filhos: Edivaldo e José Mário (conhecido por Eduardo). O casal Zé Estevão e Maria mudou-se para Londrina, no Paraná, e quis o destino que a doença de chagas vitimasse fatalmente José Estevão. Com menos de três anos de casada, Maria de Zé Estevão ficou viúva e voltou para Capelinha com os filhos. A época, no ano de 1957, viajou de avião com o corpo do marido, regalia só permitida pela influência da família de Teodomiro Vitor e Dona Eloína.

Maria Maria

A partir daí, e até os dias de hoje, aos 90 anos, completados no último dia 26 de dezembro, Maria de Zé Estevão – ou apenas Maria, para fazer jus à música de Milton Nascimento que grita: “Maria Maria é um dom, uma certa magia”, ela criou os dois filhos e participou da criação dos nove filhos do primeiro casamento do marido. Duas enteadas de Maria ainda moram em Capelinha: Tereza de Zezito e Santinha. Também criou duas sobrinhas.

Maria trabalhou como cabeleireira, quitandeira, salgadeira, costureira e serviçal de escola. É também conhecida pela participação ativa em movimentos religiosos e sociais, como Guarda de Honra, Conferência Nossa Senhora da Graça (SSVP), Festa do Divino, Folia de Reis e Coral Santa Cecília, entre outros.

Há cerca de seis anos, a memória resolveu brincar com Maria. E ela se lembra mais dos acontecimentos de outrora que das coisas atuais. Mal sabe o Alzheimer que as lembranças de Maria mostram o tamanho dessa mulher gigante, que encarou – e ainda encara – a vida com muita dignidade.

Memórias

As memórias de Maria contam que o bairro Buracão tem esse nome por que havia uma cratera que dividia a rua, e era preciso improvisar pinguelas. Trazem à tona momentos com as grandes amigas Vicentina de Maria Bahiana, Soledade de Mané Coelho e Zarinha Pimenta. Lembra-se dos padres Otacílio, José Batista, Pedro e José Gabriel, entre outros.  Ela fazia e dava manutenção nas perucas da Semana Santa: usadas nas imagens da Procissão do Encontro.

Ela conta que, na época de solteirice, adorava fazer “fut”: os capelinhenses vestiam a melhor roupa e passeavam pelas ruas centrais. Ela aproveitava para “flertar”, outro costume da época. “Eu era namorista”, brinca. Mas os namoros se resumiam a trocas de olhares, extravagância para as moças de Capelinha das décadas de 1940 e 1950, que não podiam nem sequer pegar na mão dos moços sem que houvesse permissão da família. Ou um compromisso de namoro – na maioria dos casos para casamento futuro.

A memória de Maria também se lembra do filho Eduardo, morto em um acidente há seis anos. Traz à tona a dor de perder um filho, mas também os netos que tem: são sete, e um deles, Eduardinho, foi criado junto a ela como um filho. Tem uma neta do coração: Fernanda.

A lida da vida volta à memória de Maria com facilidade: em certo ano, ela trabalhava na Escola Coronel Coelho na parte da manhã, à tarde fazia quitanda (para vender e por encomenda), e à noite estudava, na própria Escola Coronel Coelho, onde concluiu o primeiro grau.

Dos prefeitos passados, lembra-se dos mais antigos aos mais modernos, entre eles Gotardo Pimenta, Seu Mingo, Pedro Vieira, Zezinho da Vitalina. E, quando é lembrada pelo filho que o atual prefeito é Tadeuzinho de Sinhaninha, ela pergunta espantada: “Pode ser prefeito assim novinho”? E completa: “Tomara que faça um bom governo”. Lembra-se da amiga Dona Élida, vice-prefeita, com quem tem laços de amizade de longos anos.

Segredos do bem viver

Maria foi morar na casa do filho, e caiu no quintal há cerca de dois anos, fraturou o fêmur. E agora, que precisa de uma cuidadora, passa o dia “fuxicando”. Mas, ela explica, caro leitor: “O fuxico faço na mão, não na língua”. São as colchas de fuxico que faz e presenteia os familiares.

Maria conta que nunca bebeu, mas revela: “Como de tudo”. Do alto de 90 anos bem vividos, conhece a vida de cor e salteado e, como uma mestra, ensina o segredo para a longevidade: “Paciência, calma, não desesperar com as dificuldades da vida”.

Maria de Zé Estevão guarda em si uma vivência digna e exemplar de mulher forte e, por índole, guerreira. Que a geração atual saiba respeitá-la como a memória-viva de Capelinha.

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Maria de Zé Estevão em família: em pé a nora Olinda, o filho Edivaldo e a neta Beatriz. Sentadas: a neta Fernanda
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O casal José Estêvão e Maria
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Dona Eloína Vitor, mãe de Marlene Pimenta e mãe de criação de Maria
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Maria em pé à direita. Na foto ainda a irmã Ana (de azul), a mãe Galdina e os filhos Edivaldo (à direita) e Eduardo

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Maria na década de 1970
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Maria e amigas na Coroação de Nossa Senhora da Graça na Matriz
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Maria nas épocas de escola estadual
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Com a amiga Graça ao lado da imagem de Nossa Senhora de Fátima
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Maria na década de 1980

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Com Vicentina Baiana na missa de 97 anos da amiga, dia 29 de dezembro de 2016
Com Vicentina Baiana na missa de 97 anos da amiga, dia 29 de dezembro de 2016
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Comemorando o “niver”, dia 26 de dezembro, com pizza

Clique no link e assista vídeo postado no Facebook dia 4 de janeiro pela neta Fernanda: https://www.facebook.com/nanda.pimenta.7/videos/1280342708655673/

 

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